Aquele brado!

Pensei em escrever sobre a minissérie O Brado Retumbante logo ao fim do primeiro capítulo. Mas, como achei, em princípio, a interpretação do protagonista Domingos Montagner um tanto inconsistente na estreia, me abstive e fiz bem nisso! Ao longo dos oito capítulos, Domingos deu um verdadeiro show. A tal inconsistência que senti de saída foi, na verdade, o estilo que o ator imprimiu ao personagem.

Paulo Ventura não era um político escolado, daí um discurso natural, diferente e sem os tradicionais verbetes e cacoetes dos experientes da nossa política. Domingos deu um crescimento gradual ao personagem – algo difícil de fazer numa obra curta – e, ao fim da trama, Ventura não era lá um Paulo Maluf (e seu discurso apuradíssimo), mas já tinha certa malemolência na arte da política.

O texto do excelente Euclydes Marinho e sua equipe também esteve no ponto. Tratava-se de uma obra para adultos, sem obviedades ou frasismos manjados. Dispensando referências explícitas, a trama fez referência à todos os políticos brasileiros sem precisar retratar nenhum. Com um elenco enxuto, muitos atores conseguiram brilhar, casos de Otávio Augusto, Mariana Lima, Maria Fernanda Cândido e José Wilker. Leopoldo Pacheco e Miele também foram destaques.

A solução de contar cada capítulo com começo, meio, fim e título foi outra excelente sacada. Fez o telespectador que chegou à trama lá pela segunda semana acompanhar o que restava sem muitos prejuízos. Outra bola dentro da história foi o ritmo não foi frenético e dando a sensação de que o elenco ia pegar o trem das 11 e precisava dar uma corridinha. A história foi feita e programada para ter oito capítulos e foi contada sem sobressaltos durantes eles.

Ressalvo como minhas únicas expectativas não superadas: a abertura, que contemplou apenas autores e direção e foi curtíssima. E a participação do ator Murilo Armacollo, como Júlio/Julie. O ator esteve ótimo na atuação e foi feito um grande barulho em cima do personagem, que apareceu muito pouco. O talento do intérprete e a boa sacada de sua aparição poderiam ter sido mais explorados.

Noves fora, O Brado Retumbante foi uma grata surpresa desse início de ano. Uma obra selada com qualidade e bom gosto que vai deixar saudades.

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